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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O HOMEM DEPOIS DA MORTE




A separação ou libertação da alma por ocasião da morte do corpo físico, se opera gradualmente e com uma lentidão variável, segundo os indivíduos e as circunstâncias da morte. Os laços que unem a alma ao corpo não se rompem senão pouco a pouco, e mais ou menos lenta quanto a vida foi mais material e vulgar em relação ao sensualismo. 

No momento da morte, primeiro tudo é confuso; a alma precisa de algum tempo para se reconhecer, porque está meio atordoada, é como o estado de um homem que vai acordando de sono profundo e que procura inteirar-se da sua situação. A lucidez das ideias e a memória do passado lhe retornam à medida que se desfaz a influência da matéria da qual acaba de se libertar, e que se dissipa a espécie de bruma que obscurece seus pensamentos.

A duração da perturbação que se segue à morte é muito variável; pode ser de algumas horas somente, como de vários dias, de vários meses e mesmo de vários anos. Ela é menos longa naqueles que, durante a vida, se identificaram com seu estado futuro, porque compreendem imediatamente sua situação, porém é tanto mais longa quanto o homem tenha vivido mais materialmente.

As sensações que a alma experimenta nesse momento são também muito variáveis. A perturbação que segue a morte nada tem de penosa para o homem de bem. Para este ela é calma e em tudo semelhante à sensação que acompanha um despertar pacífico. Para aquele cuja consciência não é pura e que está mais preso à vida corporal que à espiritual, ela é cheia de ansiedade e de angústias que aumentam à medida que ela se reconhece; porque então ela está tomada de medo e de uma espécie de terror em presença daquilo que vê, e sobretudo daquilo que entrevê.

A sensação que se poderia chamar física é a de um grande alívio e de um imenso bem-estar. Sente-se como livre de um fardo, e se está muito feliz por não experimentar mais as dores corporais por que era afetado poucos instantes antes de se sentir solto, desligado e alerta como quem viesse a ser libertado de pesadas correntes.

Na sua nova situação, a alma vê e ouve o que via e ouvia antes da morte, mas vê e ouve outras coisas que escapam à grosseria dos órgãos corporais. Neste seu no estado ela tem sensações e percepções que nos são desconhecidas 

É importante dizer que à situação da alma depois da morte ou durante a vida, não são o resultado de uma teoria ou de um sistema, mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos observados em todas as fases e em todos os períodos da sua existência espiritual, desde o mais baixo até o mais alto grau da escala, segundo seus hábitos durante a vida terrestre, o gênero de morte, etc. Diz-se, frequentemente, falando da vida espiritual, que não se sabe o que lá se passa porque pessoa alguma dela retornou, mas é um erro, uma vez que são precisamente os que lá se encontram que vêm dela nos instruir, e Deus o permite hoje como uma advertência dada à incredulidade e ao materialismo no que se refere a pluralidade de existências do espírito.

As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua depuração, assim, somente às almas de elite tem condições para gozar da presença de Deus.

Deus está por toda parte porque Ele irradia em todas as porções do espaço, e pode-se dizer que o Universo está mergulhado na divindade, como nós estamos mergulhados na luz solar. Mas os Espíritos atrasados são rodeados de uma espécie de neblina que o oculta aos seus olhos, e que se dissipa na mesma medida que eles se depuram e se desmaterializam. Os Espíritos inferiores são, pela vista, com relação a Deus, o que os encarnados são com relação aos Espíritos: verdadeiros cegos.

Se as almas não tivessem mais individualidade depois da morte, seria para elas, e para nós, como se não existissem, e as consequências morais seriam exatamente as mesmas. Elas não teriam nenhum caráter distintivo, e a do criminoso estaria no mesmo plano da do homem de bem, o que ocasionaria o desinteresse em fazer o bem.

A individualidade da alma foi posta a descoberto de uma maneira, por assim dizer, material, nas manifestações espíritas, pela linguagem e as qualidades próprias de cada uma. Uma vez que elas pensam e agem de uma maneira diferente, disso resulta, que umas são boas e outras más, umas sábias e outras ignorantes, umas querem o que outras não querem, isso é a prova evidente de que elas não estão confundidas num todo homogêneo, sem falar das provas patentes que nos dão de terem animado tal ou tal indivíduo sobre a Terra. Graças ao Espiritismo experimental, a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga, mas um resultado da observação.

A própria alma constata sua individualidade, porque tem pensamento e vontade próprios, distintos das outras. Ela, inclusive, a constata pelo seu envoltório fluídico ou perispírito, espécie de corpo limitado que faz dela um ser à parte. 

Existem aqueles que creem fugir à censura de materialistas ao admitirem um princípio inteligente universal do qual absorvemos uma parte ao nascer, o que constitui a alma, para devolvê-la depois da morte à massa comum onde ela se confunde como as gotas d’água no Oceano. Esse sistema, espécie de transação, não merece o nome de espiritualismo, porque é tão desesperador quanto o materialismo. O reservatório comum do todo universal equivaleria ao nada, uma vez que aí não haveria mais individualidades.

O estado da alma varia consideravelmente segundo o gênero de morte, mas, sobretudo, segundo a natureza dos hábitos que teve durante a vida. Na morte natural, o desligamento se opera gradualmente e sem abalo; frequentemente, ele começa mesmo antes que a vida se extinga. Na morte violenta por suplício, suicídio ou acidente, os laços se rompem bruscamente. Nestes casos, o Espírito, surpreendido pelo imprevisto, fica como atordoado pela mudança que nele se opera e não compreende sua situação. Um fenômeno mais ou menos constante, em semelhante fato, é a persuasão em que se acha de não estar morto, e essa ilusão pode durar vários meses e mesmo vários anos. Nesse estado, vai, vem e crê aplicar-se aos seus trabalhos, como se fosse ainda deste mundo, muito espantado que não respondem quando ele fala. Essa ilusão não é exclusivamente dos casos de mortes violentas, mas também, é encontrada nos indivíduos cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais. 

A alma depois de ter deixado o corpo não se perde na imensidade do Infinito, como geralmente se figura. Ela erra no espaço e, o mais frequentemente, no meio daqueles que conheceu, e sobretudo daqueles que amou, podendo se transportar instantaneamente a distâncias imensas.

A alma conserva todas as afeições morais, dessa forma, não esquece senão as afeições materiais que não são mais da sua essência. Por isso, vem com alegria rever seus parentes e seus amigos, e é feliz por dela se lembrarem 

A conservação da lembrança do que fez sobre a Terra ou o interesse pelos trabalhos que deixou inacabados depende da elevação do Espírito e da natureza dos seus trabalhos. Os Espíritos desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais, das quais são felizes de estarem livres. Quanto aos trabalhos que começaram, segundo a sua importância e a sua utilidade, eles inspiram, algumas vezes a outros o pensamento de terminá-los.

A alma não somente reencontra no mundo dos Espíritos os parentes e amigos que a precederam, mas reencontra, também, aí muitos outros que havia conhecido nas suas precedentes existências. Geralmente, aqueles que por ela mais se afeiçoam vêm recebê-la na sua chegada ao mundo dos Espíritos, e a ajudam a se libertar dos laços terrestres. Entretanto, a privação do reencontro com as almas mais queridas, algumas vezes, é uma punição para as almas culpadas.

O desenvolvimento incompleto dos órgãos da criança não permite ao Espírito da criança morta em tenra idade se manifestar completamente, porém, liberto desse envoltório, suas faculdades são as que tinha antes da sua encarnação. O Espírito não tendo passado senão alguns instantes na vida, suas faculdades não puderam se modificar. 

A diferença que há depois da morte, entre a alma do sábio e do ignorante, d selvagem e do homem civilizado é, aproximadamente, a mesma diferença que existe entre eles durante a vida, porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos que lhe faltavam sobre a Terra.

Depois da morte as almas progridem mais ou menos segundo sua vontade, e algumas progridem muito, mas têm necessidade de colocarem em prática durante a vida corporal o que adquiriram em ciência e em moralidade. Aquelas que estão estacionárias retomam uma existência análoga à que deixaram, mas as que progrediram merecem uma encarnação de uma ordem mais elevada.

O progresso, sendo proporcional à vontade do Espírito, há os que conservam por longo tempo os gostos e as tendências que tinham durante a vida, e que perseguem as mesmas ideias. (8)

A fixação irrevogável da sorte do homem depois da morte seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus, porque há muitos que não dependeram de si mesmos para se esclarecerem suficientemente, sem falar dos idiotas, dos cretinos e dos selvagens, e das inumeráveis crianças que morrem antes de terem entrevisto a vida. Mesmo entre as pessoas esclarecidas, há muitas que puderam crer-se bastante perfeitas para estarem dispensadas de fazer mais, e isso é uma prova importante que Deus dá da sua bondade, permitindo ao homem fazer no dia seguinte o que não fez na véspera.

Se a sorte está irrevogavelmente fixada, por que os homens morrem em idades tão diferentes, e por que Deus, na sua justiça, não deixa a todos o tempo para fazerem o maior bem possível ou reparar o mal que fizeram? Quem sabe se o culpado que morreu aos trinta anos, não estaria arrependido, não teria se tornado um homem de bem, se vivesse até os sessenta anos? Por que Deus lhes tira esse meio enquanto dá a outros? Só o fato da diversidade da duração da vida, e do estado moral da grande maioria dos homens, prova a impossibilidade, se se admite a justiça de Deus, de que a sorte da alma seja irrevogavelmente fixada depois da morte.

Na vida futura, a sorte das crianças que morrem em tenra idade é uma das questões que provam melhor a justiça e a necessidade da pluralidade das existências. Uma alma que não tivesse vivido senão alguns instantes, não tendo feito nem bem nem mal, não mereceria nem recompensa nem punição. Segundo a máxima do Cristo, de que cada um é punido ou recompensado segundo suas obras, seria, tanto ilógico como contrário à justiça de Deus admitir-se que, sem trabalho, ela fosse chamada a gozar da felicidade perfeita dos anjos, ou que pudesse disso ser privada, e, todavia, ela deve ter uma sorte qualquer, pois um estado misto, pela eternidade, seria também injusto. Interrompida uma existência desde o seu princípio, não podendo ter, pois, nenhuma consequência para a alma, sua sorte atual é a que merecia na sua precedente existência, e sua sorte futura aquela que merecerá nas suas existências ulteriores.

Além das suas alegrias ou seus sofrimentos, as almas têm ocupações na outra vida, pois se elas não se ocupassem senão de si mesmas durante a eternidade, isso seria egoísmo, e Deus, contrário ao egoísmo, não aprovaria na vida espiritual o que pune na vida corporal. As almas ou Espíritos têm ocupações de acordo com seu grau de adiantamento, ao mesmo tempo que procuram se instruírem e melhorarem. 

Atualmente, reconhece-se perfeitamente que o fogo do Inferno é um fogo moral e não um fogo material, todavia, nem sempre se define a natureza dos sofrimentos. As comunicações espíritas os colocam sob nossos olhos, e, por esse meio, nós podemos apreciá-los e nos convencer de que, por não ser o resultado de um fogo material, que não poderia queimar, com efeito, almas imateriais, eles não são menos terríveis em certos casos. Essas penas não são uniformes e variam ao infinito, segundo a natureza e o grau das faltas cometidas, e são, quase sempre, essas próprias faltas que servem ao castigo. É assim que certos homicidas são constrangidos a permanecerem sobre o lugar do crime e a ter, sem cessar, suas vítimas sob seus olhos. Que o homem de gostos sensuais e materiais conserva esses mesmos gostos, mas a impossibilidade de os satisfazer materialmente é para eles uma tortura, assim, certos avarentos creem sofrer o frio e as privações que suportaram durante a vida por avareza, outros permanecem perto dos tesouros que enterraram e estão em transe perpétuo pelo medo que os roubem; em uma palavra, não há uma falta, uma imperfeição moral, uma ação má que não tenha, no mundo dos Espíritos, sua contrapartida e suas consequências naturais; e, para isso não há necessidade de um lugar determinado e circunscrito: por toda parte em que se encontre, o Espírito perverso carrega seu inferno consigo.

Além das penas espirituais, há penas e provas materiais que o Espírito, que não está depurado, suporta nas novas encarnações, onde é colocado numa posição para suportar o que fez os outros suportarem, ou seja, ser humilhado, se foi orgulhoso; miserável, se foi mau rico; infeliz por seu filho, se foi um mau filho, etc. A Terra, como dissemos, é um lugar de exílio e de expiação, um purgatório, para os Espíritos dessa natureza, e no qual depende de cada um não retornar, melhorando-se bastante para merecer ir a um mundo melhor. 

A prece é útil para as almas sofredoras, inclusive, é recomendada por todos os bons Espíritos. Por outro lado, ela é pedida pelos Espíritos imperfeitos como um meio de aliviar seus sofrimentos. A alma pela qual se ora experimenta alívio, porque é um testemunho de interesse e o infeliz é sempre aliviado quando encontra corações caridosos que se compadecem de suas dores. Por outro lado, ainda pela prece, estimula-se ao arrependimento e ao desejo de fazer o que é preciso para ser feliz. É nesse sentido que se pode abreviar sua pena se, por sua vez, ela secunda pela sua boa vontade. 

A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito das almas, assim como a punição à gravidade da falta. Desta maneira há, portanto, graus infinitos nos gozos da alma, desde o instante em que ela entra no caminho do bem, até que atinja a perfeição.

A felicidade dos bons Espíritos consiste em conhecer todas as coisas, não ter nem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem nenhuma das paixões que fazem a infelicidade dos homens. O amor que as une é, para elas, a fonte de uma suprema felicidade. Elas não experimentam nem as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. Um estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona, própria do egoísta, uma vez que sua existência seria uma inutilidade sem limites. A vida espiritual, ao contrário, é uma atividade incessante pelas missões que os Espíritos recebem do ser supremo, como sendo seus agentes no governo do Universo; missões que são proporcionais ao seu adiantamento e das quais são felizes, porque lhes fornecem ocasiões de se tornarem úteis e de fazerem o bem. 
Estudo com base na obra O QUE É O ESPIRITISMOCap. III