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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Qual deve ser nosso método de defesa quando recebermos uma ofensa?

Então, qual deve ser nosso método de defesa quando recebermos uma ofensa?
Qual é, neste caso, a melhor forma de reagir? 
Como se resolve o problema da vingança? 


Quando alguém faz uma coisa injusta contra nós, a grande maioria julga que temos de reagir, e que não é sabedoria, mas loucura, deixar essa reação nas mãos da Lei, que sabe cumpri-la muito melhor. 

Antes de tudo é necessário que renunciemos a vingança. Isto é lógico para quem compreendeu que é muito mais fácil chegar a justiça por intermédio da Lei, que possui poderes maiores do que os nossos. O mundo julga essa renúncia, que nos faz recuar perante o ataque, como fraqueza e covardia. Isso pode ser verdade na lógica das leis que dirigem o plano de vida animal e do homem que a ele pertence. Mas, para quem subiu a um plano mais alto, essa renúncia significa afastar o empecilho ou lançar por terra a parede representada pela nossa intervenção, que paralisaria o funcionamento da Lei com relação a nós. Assim, a primeira coisa a fazer é renunciar a vingança. 
 Mas, enquanto quisermos fazer justiça, a Lei respeitará nossa livre escolha, e não intervirá, para não sobrepor um juiz e executor de justiça ao outro. Mas acontece também outro fato: quando tivermos renunciado, na realidade a vingança, e só neste caso, ela se realizará automaticamente, sem nossa intervenção, por intermédio da Lei que, indiretamente para que a justiça seja feita, tem de cumprir também essa vingança que nela está implícita. Disto se segue que poderíamos afirmar: só se pode chegar a mais completa vingança quando tivermos destruído em nós todo o desejo dela, e; perdoando tudo, não tivermos feito nada para realizá-la, pelo contrário, deixando tudo nas mãos de Deus, isto é, entregue a reação da Lei. O primeiro passo, então, é renunciar a vingança. O segundo é perdoar a ofensa.
Mas, há ainda mais. Embora renunciando a vingança e perdoando a ofensa, podemos ficar com sua lembrança e com o rancor e ódio por ela gerados. Enquanto tivermos dentro de nós a idéia de um direito nosso não satisfeito; ele pertencerá a nós, e a Lei não poderá transforma-lo em direito seu; para tomar nosso lugar na defesa. Para que isto aconteça, é necessário esquecer o problema de exigir justiça para nosso caso particular, porque só assim ele se pode tomar problema pertencente à Lei, que é o da realização da justiça universal. Quando conosco acontecerem essas coisas, podemos ficar sossegados, esperando a automática realização da justiça, o que elimina a necessidade de uma vingança. Neste caso, a realização da justiça terá a vantagem de não representar de nossa parte uma nova injustiça para corrigir a velha, como se costuma fazer no mundo, e assim, ela não aumentará nossa dívida, mas será só execução de justiça em nossa defesa, na qual o devedor terá de pagar, enquanto que, ao mesmo tempo, nos deixa inocentes de tudo isto, livres de culpas novas, que depois por sua vez teríamos de pagar. A coisa mais importante é ficarmos isentos de qualquer dívida; o segredo de nossa vitória não é o de possuirmos força, mas de estarmos limpos de qualquer mancha. Por isso, não devemos ficar ligados ao ofensor, que representa a injustiça, nem sequer por um pensamento de vingança. 
Quem apenas perdoa, não reage e não exige compensação, mas admite a ofensa e a dívida dos outros a seu respeito. Mas, para que se desloque completamente de nós para a Lei a função da realização da justiça, é necessário não conservar na propriamente nem a lembrança da ofensa nem a do ofensor. Não significa isso que a experiência não tenha de ser aprendida, mas, sim, venha a completar-se no esquecimento definitivo, que é o único que resolve, para que o caso não se repita, e não continue numa cadeia de novas injustiças sem fim. É difícil sair dessa rede, uma vez que caímos nela. 
A força de injustiças, nunca será possível chegar à justiça, ao passo que, perdoando e esquecendo, se entregarmos tudo à Lei, perante ela ficam de pé e terão de ser resolvidos, em perfeita justiça, o débito do ofensor e o crédito do ofendido. Perdoar não quer dizer que o primeiro não tenha mais de pagar, e que o segundo não tenha de receber. É erro acreditar que o perdão seja para nós contraproducente. Ele representa vantagem, porque liberta quem perdoa de todas as más conseqüências, ao mesmo tempo que não apaga o débito do ofensor, o qual não tem de prestar contas a um homem (o ofendido), mas ao próprio Deus. Só assim se pode sair do plano da injustiça baseada na força, que é o plano do mundo, e entrar no da justiça, que é o de Deus, o que para o homem justo representa a melhor posição e vantagem. Não há dúvida de que tudo isso tem sua lógica e beleza, mas é verdade também que quase ninguém o pratica, julgando-o loucura.
A LEI DE DEUS Autor: Pietro Ubaldi