https://www.facebook.com/ http://pensador.uol.com.br/colecao/masgalos/

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A BÊNÇÃO DA DOR


Com exceção do masoquista, que busca prazer na dor, a dor constitui o grande medo da alma humana, o fardo mais pesado que carregamos em nossa passageira existência. Em vista disso, ao expressarmos o desejo de coisas boas, dizemos: saúde e paz! O resto, a gente corre atrás!
Entretanto, não basta, apenas, desejar saúde e paz, se as negligenciamos em nossas ações.
A vida é construção. Se não construímos saúde e paz, como poderemos viver em harmonia e sem dor.
Na vida de Francisco de Assis , pelo Espírito Miramez , na psicografia do médium João Nunes Maia , há uma passagem sobre um hospital de leprosos por demais impressionante, se considerarmos o que seria uma casa de saúde, no século XIII.
Os hansenianos daquela época eram relegados ao abandono, e a medicina não tinha condições, como agora, para tratá-los adequadamente, eliminando a dor e a doença.
Francisco de Assis tinha um profundo carinho por aqueles doentes e sempre pedia aos seus companheiros, na sua impossibilidade, para visitá-los e trazer notícias daqueles restos de homens. Muitos manifestavam impaciência e revolta por estarem separados da sociedade, das mulheres e dos filhos.
Certa feita, frei Pedro de Catani e frei Paulo foram visitar os enfermos e conversar com eles acerca da bondade de Deus e da misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Um deles, o mais agitado, começou a blasfemar contra Deus, contra o Cristo e contra eles mesmos, por estarem somente conversando e ele, cada vez mais doente e relegado ao abandono. Chegou mesmo a dizer:
— É porque essa doença não é em vós!
O leproso, que se chamava Tanalli, ficou mais furioso com o recado de Francisco, dizendo:
— Esse pai Francisco fica de longe nos mandando bênçãos; elas para mim de nada servem, pois cada vez que vindes aqui, fico mais revoltado e com a mesma doença. Dispenso consolo de homens como vós que parecem mais miseráveis que nós. Se tivésseis alguma coisa para dar, não viríeis aqui.
Frei Pedro de Catani e frei Paulo ouviram o leproso em atitude de oração, enquanto Tanalli blasfemava. Um dos homens, agindo sem a permissão do doente, colocou-o nos ombros e falou pacientemente:
— Vamos levá-lo ao médico, que ficou mais ou menos longe.
Lá chegando, Francisco de Assis olhou para aquele rosto em chagas, cujos lábios emurchecidos tinham se transformado numa só ferida. O odor era insuportável, o corpo era uma só chaga e o doente não mais suportava a roupa sobre a pele, que quase não existia.    
Francisco, tomado de amor pelo leproso e com profunda humildade, beijou-lhe o rosto como se fosse o de sua própria mãe, Maria Picalini Bernardone. Retirou a roupa do enfermo, jogando-a de lado e em seguida beijou-lhe as chagas pustulentas.
O doente, naquele clima de fraternidade, começou a chorar e Francisco também. Choraram juntos.
Pai Francisco pediu aos companheiros que trouxessem uma gamela com água morna e três rosas. Pôs Tanalli na gamela e pediu aos discípulos que exorassem a proteção divina, e, chamando frei Luís, pediu-lhe que recordasse a passagem do evangelho da cura de Lázaro, que havia sido dado como morto, há quatro dias, quando foi curado de catalepsia por Jesus.
E Francisco foi passando suas mãos no corpo do leproso e todas as feridas foram se fechando, à medida que as mãos lavavam o enfermo. E Tanalli, quando observou o ocorrido, ele que era um criminoso contumaz e incendiário irreverente, gritou em altas vozes com os braços estendidos para os céus:
— Senhor, sei que existis! Fazei de mim o que quiserdes que eu seja!
Alguém, apressadamente, lhe trouxe uma veste rota e todos o abraçavam e, desde então, passaram a chamá-lo frei Aprígio.
Passado muito tempo, pregando o evangelho nas andanças com pai Francisco, a quem tinha o mais elevado respeito, frei Aprígio, no ano de 1250, ainda sentia em seu interior algo a corrigir. Tinha impulsos de violência, e apesar de toda a sua vida modificada e os recursos da prece, sentia ainda dentro de si aquele animal orgulhoso e violento.
Certa noite, próximo da cidade de Lecce, quando lhe servia de teto uma árvore, perdeu o sono, fitando as estrelas e, chorando, pediu a Deus:
— “Senhor, se me fosse concedido receber algo de Tuas mãos santas e sábias. Se me fosse concedido pedir-Te alguma coisa como prêmio para meu coração. Se eu pudesse escolher um caminho de livre e espontânea vontade, eu Te pediria que beijasses outra vez o meu corpo com as chagas da lepra e eu seria o homem mais feliz da Terra, porque agora somente ela poderá arrancar do meu coração o orgulho e a violência que carrego comigo de eras  incontáveis.”
E ainda chorando adormeceu.
No dia seguinte, quando acordou com a luz do sol a banhar-lhe o rosto, frei Aprígio voltava a ser Tanalli, o leproso de Rivotorto. Ajoelhou-se diante do beijo solar, agradeceu profundamente a bondade do Criador e, desatando o cordão da cintura trocou a veste de franciscano por uma comum, tomando a direção da casa de saúde de onde, antes revoltado, saíra.
Ali, em Rivotorto, seis anos depois, no ano de 1256, Tanalli morreu agradecendo a Deus e ao Cristo pela bênção da dor, representada pela lepra, que o fizera expurgar do imo de sua alma o orgulho e a violência, trazendo-lhe paz e harmonia.
O exemplo de Tanalli nos fala ao coração. Quando abandonamos o amor às margens do caminho, a dor vem, como um ourives, lapidar nosso espírito para a nossa missão principal: evoluir.
Muita paz!